15 de outubro de 2026Portal de Direito Imobiliário da Philippi Advogados · Itajaí/SCphilippiadvogados.com.br ↗
Pesquisas

A intenção de compra de imóveis bate recorde. E as vendas?

Arte com o título A intenção de compra bate recorde. E as vendas? e um gráfico de intenção em alta sobre barras de vendas
Arte: Philippi Advogados
G
Gustavo Ferracciu PhilippiAdvogado · OAB/SC 50.514 · Philippi Advogados Associados

Nunca tanta gente disse que quer comprar um imóvel. Pela pesquisa mais recente da Brain Inteligência Estratégica, 52% dos brasileiros pretendem comprar um imóvel, o maior patamar desde 2019, quando a série começou. Mesmo assim, as vendas crescem devagar. Se a demanda está aí, o que está faltando para ela virar compra?

Esse foi o tema do webinar que a Brain promoveu no início de outubro com a ABRAINC, a associação das incorporadoras. Participaram Fábio Tadeu Araújo, CEO da Brain, Luiz Antonio França, presidente da ABRAINC, e os executivos Antonio Setin (Setin Incorporadora), Ricardo Gontijo (Direcional) e Diego Villar (Moura Dubeux). A conclusão foi a mesma em todas as falas. Demanda nunca foi o problema. O problema está no crédito. Abaixo eu organizo os principais números e o que eles mudam na prática para quem compra, vende ou tem um terreno.

A vontade de comprar está no maior nível da história

A pesquisa ouviu 1.200 pessoas em todo o país em junho de 2026. Além dos 52% com intenção de compra, ela mostra que 11% das famílias com renda acima de R$ 2.500 compraram um imóvel nos últimos doze meses. Nos últimos três anos, essa média girava em torno de 8,5%. Em números absolutos, são cerca de 21,9 milhões de famílias pensando em comprar, e 68% delas querem fazer isso em até dois anos.

Intenção de compra de imóveis no 2º trimestre de 2026, com totais, recorte por geração e por região
52% pretendem comprar, puxados pela Geração Z e pelo Nordeste.

O recorte por idade derruba a ideia de que o jovem não quer mais ter imóvel. A Geração Z, de 21 a 28 anos, lidera com 67%, contra 57% um ano antes. No webinar, Luiz França lembrou outro dado das pesquisas da Brain. Ter um imóvel é o maior sonho de 92% dos brasileiros.

Sair do aluguel virou o principal motivo

A maior parte de quem quer comprar não está pensando em investimento. Sair do aluguel é o motivo mais citado, por 37% dos interessados, contra 28% um ano antes. Em seguida vêm sair da casa dos pais (15%) e ter mais espaço (14%). Investimento aparece com 13%.

Motivos da intenção de compra de imóveis, com destaque para sair do aluguel
Quem quer comprar quer, antes de tudo, parar de pagar aluguel.

Há também uma mudança estrutural por trás disso. Diego Villar chamou atenção para a formação de novas famílias. Em 1980, eram cerca de 4,5 pessoas por domicílio. Hoje, pelo IBGE, são 2,8. Mesmo com a população crescendo menos, o país continua precisando de muito mais moradias.

Entre querer e visitar, o funil afina

É aqui que aparece o descompasso. Dos 21,9 milhões de famílias interessadas, cerca de 4,3 milhões já pesquisam imóveis pela internet, 500 mil a mais que no trimestre anterior. Mas só 1,7 milhão estão visitando imóveis. Em setembro de 2025, eram 6% das famílias. Hoje são 4%, 800 mil famílias a menos visitando.

Funil da intenção de compra, das famílias interessadas às que pesquisam online e às que visitam imóveis
A busca online cresce, mas as visitas caem. A decisão está travando antes da visita.

A leitura de Fábio Araújo é direta. A pessoa pesquisa, faz a conta da parcela e desiste antes de visitar, porque não encontra o imóvel que quer, no lugar que quer, pelo valor que consegue pagar. Por isso a Brain prefere chamar o indicador de intenção, e não de demanda. Demanda é vontade de comprar somada à capacidade de pagar.

O que se quer e o que se compra

A diferença entre desejo e compra aparece também no tipo de imóvel. 38% querem uma casa de rua, mas só 26% das compras foram de casas. No apartamento, desejo e compra praticamente coincidem, 40% e 41%. A casa costuma exigir financiamento direto, mais caro e mais difícil de conseguir.

Comparação entre o tipo de imóvel desejado e o comprado, e entre a intenção de investir e as compras para investimento
O desejo é a casa, a compra é o apartamento. E o investidor compra mais do que planeja.

O investidor é o caso oposto. Só 13% dizem que querem comprar para investir, mas 26% das compras foram feitas para investimento. Como depende menos de financiamento, ele converte a intenção em compra com muito mais facilidade. E faz sentido para ele. Segundo França, nos últimos dez anos a valorização dos imóveis acompanhou, no mínimo, a Selic, e o investidor ainda recebe o aluguel.

Dinheiro não falta. O problema é o preço

O financiamento imobiliário está em nível recorde. Pelos dados apresentados no webinar, as unidades financiadas pelo SBPE cresceram 31,9% e o valor financiado subiu 28,7%. O crédito à construção, que tinha sido muito difícil em 2025, saltou 175% em unidades. Em agosto, segundo a Abecip, o SBPE financiou R$ 16,97 bilhões, 46,6% a mais que um ano antes.

Crescimento do crédito imobiliário em 2026 e a comparação entre os juros de antes e os de hoje
O crédito cresce, mas ficou muito mais caro para a classe média.

O ponto é o custo. A poupança, principal fonte do crédito para o médio padrão, segue perdendo recursos (R$ 9,5 bilhões saíram só em agosto). Sem esse dinheiro, explicou França, os bancos precisam captar no mercado, ao custo do CDI. "Dinheiro não falta, o problema é que está caro", resumiu. Antonio Setin deu a dimensão disso para o comprador. A classe média financiava a 6% ou 7% ao ano. Hoje paga perto de 15%, e a prestação mais que dobrou. Para Fábio Araújo, com juros adequados o mercado poderia ser 30% a 40% maior.

E as vendas?

As vendas crescem, mas no ritmo do crédito. No 2º trimestre de 2026, segundo a CBIC, foram vendidas 113.676 unidades novas no país, alta de 5,3% em doze meses. Os lançamentos ficaram praticamente estáveis. Mais da metade das vendas, 51%, veio do Minha Casa, Minha Vida, que também respondeu por 58% dos lançamentos, recorde da série.

Indicadores de vendas, lançamentos, estoque e crédito imobiliário em 2026
Vendas em alta, ticket médio em queda e estoque maior.

O ticket médio das unidades vendidas caiu 10,3% em um ano, para R$ 581,9 mil, sinal de que o mercado vende mais imóveis econômicos e menos de médio e alto padrão. E o estoque subiu 8,2%, para 355.290 unidades. Setin descreveu a situação do médio padrão como ruim para o comprador e péssima para o incorporador, que vem absorvendo aumento de custo sem conseguir repassar ao preço.

O que mais está travando

01
Entrada e prazo

No médio padrão, o banco financia 70% a 80% do imóvel. Para dar tempo de o comprador juntar os 20% a 30% restantes, as obras se estendem por 36 a 48 meses, mesmo podendo ser feitas mais rápido.

02
O MCMV no limite do funding

O programa sustenta as vendas e já chega à faixa 4, para imóveis de até R$ 600 mil. Segundo a ABRAINC, o setor tem capacidade para fazer mais, mas o limite é o dinheiro do FGTS.

03
Subsídios locais

Um subsídio estadual ou municipal de R$ 15 mil a R$ 20 mil destrava a compra de quem tem renda para a parcela, mas não tem poupança para a entrada.

04
Legislação urbanística

Regras locais muito restritivas encarecem ou inviabilizam projetos. Em São Paulo, depois da mudança na legislação, o MCMV passou de cerca de 15 mil unidades por ano, em 2014, para mais de 100 mil nos últimos doze meses.

05
Juros e cenário fiscal

Todos concordaram que a virada depende da queda da Selic, que está em 13,75% ao ano, e de um controle mais firme dos gastos públicos.

O que isso muda para quem compra ou vende

Num mercado em que a demanda existe, mas o crédito decide, o contrato precisa prever o que acontece se o financiamento não sair. Algumas cautelas fazem diferença.

  • Para quem compra. Antes de pagar sinal, simule o financiamento com o banco. Na proposta e no contrato, deixe claro o que acontece com o sinal se o crédito for negado ou sair menor que o esperado. Na compra na planta, confira o quadro resumo exigido pela Lei 4.591/1964, com as regras de distrato da Lei 13.786/2018.
  • Para quem pensa em esperar os juros caírem. Setin lembrou que, quando os juros baixarem, o estoque tende a diminuir e o preço a subir. Quem compra agora pode, mais adiante, levar o financiamento para outro banco com taxa menor, pela portabilidade de crédito. Vale conferir no contrato de financiamento as condições e os custos para isso.
  • Para quem vende ou incorpora. Com mais gente interessada e menos gente conseguindo fechar, a análise prévia do comprador evita distratos e unidades que voltam ao estoque. Expliquei como montar essa estrutura no artigo sobre assessoria jurídica para construtoras e incorporadoras.
  • Para quem tem terreno. Com o estoque em alta e o crédito caro, as construtoras ficam mais seletivas na permuta. Um terreno com documentação em ordem e viabilidade conhecida negocia em melhores condições.

Aqui em Itajaí, o movimento é parecido, com demanda forte e preço subindo acima da inflação, como mostrei no artigo Por que Itajaí continua se valorizando, enquanto Balneário Camboriú desacelera?

Para fechar

A demanda por imóveis nunca esteve tão alta, e tem base sólida, na formação de novas famílias e na vontade de sair do aluguel. O que separa o interesse da compra hoje é o crédito, e isso deve mudar à medida que os juros caírem. Para quem vai fechar negócio antes disso, a segurança está no contrato, com condições claras para o financiamento, para o sinal e para a desistência.

Perguntas frequentes

Quantos brasileiros querem comprar imóvel?

Pela pesquisa da Brain de junho de 2026, 52% dos brasileiros pretendem comprar um imóvel, o maior patamar desde 2019. A Geração Z lidera, com 67%.

Por que as vendas de imóveis não acompanham a intenção de compra?

O principal freio é o crédito. Com juros altos, muita gente pesquisa, faz a conta da parcela e desiste antes de visitar o imóvel.

Qual é o principal motivo para comprar imóvel hoje?

Sair do aluguel, citado por 37% dos interessados. Investimento aparece com 13%, mas responde por 26% das compras efetivas, porque o investidor depende menos de financiamento.

Conteúdo de caráter informativo, elaborado a partir das fontes indicadas. Não substitui a análise do caso concreto.

Precisa avaliar o impacto no seu caso?

Nossa equipe analisa a situação concreta e indica o melhor caminho.

Falar com um advogado →
Fale conosco

Vai comprar, vender, permutar ou incorporar?

Fazemos o levantamento do imóvel e das partes e montamos o contrato para o seu negócio sair seguro.

Enviar mensagem pelo WhatsApp